AGIOTA PRESO ACUSADO DA MORTE DE DÉCIO SÁ FALA SOBRE O CASO E OUTROS CRIMES DE PISTOLAGEM - Randyson Laércio

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

AGIOTA PRESO ACUSADO DA MORTE DE DÉCIO SÁ FALA SOBRE O CASO E OUTROS CRIMES DE PISTOLAGEM

GLÁUCIO ALENCAR FALA SOBRE 'CASO DÉCIO' E OUTROS CRIMES DE PISTOLAGEM E ACUSA: 

'O deputado Rigo Teles falou com Décio meia hora antes de ele ser assassinado'

'Investigação do 'caso Décio Sá' foi dirigida e desprezou a linha Barra do Corda'

'Júnior Bolinha ligou para Pedro Teles 2 vezes no dia do assassinato de Décio e uma na manhã seguinte'
Gláucio Alencar
 

Preso há mais de seis meses no Quartel do Comando da Polícia Militar do Maranhão, no Calhau (São Luís), o empresário e acusado de agiotagem Gláucio Alencar Pontes de Carvalho, de 35 anos, denunciado à Justiça como mandante do assassinato do jornalista Aldenísio Décio Leite de Sá, de 42 anos, em 23 de abril do ano passado – falou ao Jornal Pequeno com exclusividade, por meio de parentes e amigos, que enviaram ao preso, durante cerca de um mês, perguntas do jornal por escrito.

De sua cela de 4 por 4 metros, com um banheiro sem porta – que divide com o pai, José de Alencar Miranda Carvalho, 73, e com Fábio Aurélio do Lago e Silva, o 'Buchecha', 33, ambos também denunciados por participação no homicídio –, Gláucio Alencar acusou a comissão de seis delegados que investigou o 'caso Décio' de direcionar os trabalhos para 'blindar' o grupo político da família Teles, de Barra do Corda, aliada do governo estadual.

 A família tem como membros proeminentes o ex-prefeito Manoel Mariano de Sousa, o 'Nenzim' (PV), e dois filhos deste – o deputado estadual Rigo Alberto Teles de Sousa (PV) e o empresário Pedro Alberto Teles de Sousa.

De acordo com Gláucio, não só no homicídio que vitimou o jornalista, mas ao menos outros quatro crimes de pistolagem – três ocorridos em Barra do Corda e um em Teresina (PI) – têm envolvimento dos Teles – chamados, numa reportagem da revista IstoÉ, após serem presos em fevereiro de 2011 pela Polícia Federal, por desvios de recursos públicos, de 'Família Metralha'.

Pedro Teles
Gláucio acusou Pedro Teles de ser o mandante, além do assassinato de Décio Sá, das mortes do líder comunitário Miguel Pereira da Silva, o 'Miguelzinho', em 1997; do advogado Almir Silva Neto, em dezembro de 2008; do negociante de carros – e também envolvido com agiotagem – Fábio dos Santos Brasil Filho, o 'Fabinho', em março de 2012; e do vereador Antonio Aldo Lopes Andrade, em setembro de 2012.

Segundo Gláucio, os assassinatos – todos com características de crimes de encomenda – foram apurados pela polícia, mas, à exceção do que vitimou 'Miguelzinho', morto após ter ocupado um terreno da família Teles (pelo qual Pedro Teles deve ir a júri popular, apontado como mandante), 'nos outros casos, assim como no 'caso Décio', a polícia chegou aos executores, mas acabou responsabilizando inocentes como mandantes'.

Décio Sá postou em seu blog uma matéria sobre o 'caso Miguelzinho' no dia em que foi assassinado, e falava ao celular sobre o assunto com o então vice-prefeito de Barra do Corda, Aristides Milhomem de Sousa, quando o pistoleiro paraense Jhonatan de Sousa Silva, 24 anos, o executou com 6 tiros.
Décio Sá

'Caso Fábio Brasil' – Ao JP, Gláucio se declarou inocente em relação ao assassinato de Décio Sá e a outro crime pelo qual igualmente é apontado pela polícia como mandante: a execução de Fábio Brasil, ocorrida em Teresina no fim de março do ano passado.
Fábio Brasil

Segundo Gláucio, a viúva de Fábio Brasil, Patrícia Gracielli Aranha Martins, em seu depoimento à polícia do Piauí – ao qual o JP teve acesso –, descartou qualquer suspeita sobre ele. 'Gláucio era um medroso', depôs Patrícia. A viúva também informou à polícia que o marido tinha débitos com mais de 60 pessoas e que o maior credor de Fábio era Pedro Teles, a quem o negociante de carros devia cerca de R$ 800 mil.

Conforme o depoimento de Patrícia, Fábio também devia altas somas a outros supostos agiotas, entre eles Telmo Mendes Júnior (irmão da desembargadora Nelma Sarney; R$ 400 mil); Eduardo José Barros Costa (o 'Eduardo DP', da cidade de Dom Pedro, filho da ex-prefeita Arlene Costa; R$ 400 mil); João Batista Magalhães (o 'Magáiver'; R$ 180 mil); e Sidarta Gautama Farias Maranhão (juiz de Caxias; R$ 110 mil).

O deputado estadual Marcos Antonio de Carvalho Caldas (PRB) também aparece no rol de credores de 'Fabinho'. A dívida seria de R$ 60 mil, segundo a viúva da vítima.

Gláucio disse ao JP que não tinha motivos para encomendar o assassinato de 'Fabinho', com quem fazia negócios envolvendo várias prefeituras do interior, porque já havia resolvido com ele suas pendências financeiras – que perfaziam R$ 180 mil –, numa reunião na qual Fábio e Patrícia repassaram uma empresa a Gláucio.

'Quem teria mais interesse na morte de Fabio Brasil: eu, que já havia considerado a dívida dele comigo quitada, ou alguém a quem ele devia R$ 800 mil, uma pessoa com histórico criminal e conhecida por resolver seus problemas à bala?', questionou Gláucio, para quem José Raimundo Chaves Júnior, o 'Júnior Bolinha' (também preso), intermediou, a mando de Pedro Teles, tanto o assassinato de Fábio Brasil, como o do jornalista Décio Sá – ambos confessados por Jhonatan de Sousa Silva.

Disse Gláucio ao JP:

'O blog do Décio postou 37 matérias contra a família Teles em um ano, enquanto nenhuma foi publicada citando meu nome. Houve, sim, menções ao meu nome em comentários no blog, quando da postagem sobre o assassinato de Fábio Brasil. Por isso, eu pedi, primeiro ao Fábio Câmara [vereador recém-eleito por São Luís, ligado ao secretário estadual de Saúde, Ricardo Murad, e amigo de Décio Sá] e depois ao Ronaldo [Ronaldo Henrique Santos Ribeiro, ex-advogado de Gláucio e também amigo do jornalista], que conseguissem marcar uma conversa com Décio, o que ocorreu no escritório de Ronaldo, na Península da Ponta d'Areia, na época da Semana Santa de 2012.

 Ficou acertado que Décio não publicaria mais nada sobre o caso, o que realmente ocorreu. Houve um acerto financeiro com Décio, não sei de quanto. Ronaldo foi quem pagou Décio. 

O fato é que – antes desse acerto ou depois – nunca, eu e meu pai [José de Alencar Miranda Carvalho], tivemos nada contra o Décio que motivasse fazermos qualquer coisa contra ele, diferentemente do Pedro Teles, que viu no blog do Décio, durante um ano, quase 40 matérias contra a família Teles. 

A última delas, por sinal, publicada no dia da morte do jornalista (23 de abril de 2012), denunciando um 'jogo de cartas marcadas', pois, das 25 pessoas selecionadas pela Justiça – das quais sete seriam escolhidas para compor o júri de Pedro Teles –, 20 tinham alguma ligação com a família do réu. 

E Décio não fazia segredo a ninguém de que tinha mais 'bombas' sobre o júri do 'caso Miguelzinho', que por sinal foi suspenso depois das denúncias. 

Está claro que Pedro Teles tinha muito mais motivos do que eu para mandar matar Décio Sá e Fábio Brasil, mas a investigação policial foi, o tempo todo, dirigida a condenar inocentes e desprezar a 'linha' Barra do Corda, a fim de proteger aliados do governo. 

O 'Capita' [Fábio Aurélio Saraiva Silva, ex-subcomandante do Batalhão de Choque de PM-MA, preso acusado de fornecer a arma usada no assassinato de Décio Sá, uma pistola ponto 40] e o 'Buchecha' também são inocentes.'
'Peças importantíssimas desprezadas' – Conforme Gláucio Alencar, a polícia maranhense 'desprezou peças importantíssimas' no inquérito que resultou na denúncia de ele ser o mandante do assassinato Décio Sá. 'E o inquérito do 'caso Fábio Brasil', feito pela polícia do Piauí, também está viciado, pois foi feito com base em provas 'emprestadas' dos autos do processo do 'caso Décio'. Ou seja, não houve investigação sobre a morte de Fábio Brasil', disse Gláucio.

Um exemplo de desprezo da polícia por elementos importantes, afirmou Gláucio, foi a informação constante no depoimento do jornalista e blogueiro Marco Aurélio Nunes D'Eça (colega de profissão e amigo de Décio) de que ele (D'Eça) recebera, na tarde de 27 de abril de 2012, uma mensagem por celular de outro blogueiro, Luís Pablo Conceição Almeida (filho do também jornalista e blogueiro Luís Assis Cardoso Silva) informando que o deputado Rigo Teles disse a ele (Luís Pablo), no velório do jornalista, que havia conversado por celular com Décio Sá meia hora antes de sua morte.

'Se o deputado Rigo Teles falou com Décio às 22h do dia 23 de abril de 2012, a polícia deveria raciocinar que a conversa ocorreu exatamente no horário em que o pistoleiro Jhonatan disse, em depoimento, que perdeu o carro do jornalista de vista. Por que a polícia não foi atrás disso? O pistoleiro poderia muito bem ter ligado para o 'Bolinha', que acionou alguém da família Teles e o deputado entrou no circuito, para obter a informação de onde Décio estava. 

O deputado poderia muito bem ter falado com Décio e informado ao pistoleiro que ele estava no Estrela do Mar. O Jhonatan afirmou à polícia que, depois que perdeu o Fox prata de Décio de vista, o encontrou na Litorânea 'do nada', apenas checando, nos carros que avistava, a marca e a cor. Isso é difícil de acreditar.

 É tão inverossímil e questionável quanto a versão inicial do pistoleiro sobre o destino da arma do crime, que ele inicialmente disse ter atirado no mar, numa viagem de ferryboat à Baixada Maranhense, e depois levou a polícia a um local nas dunas da Litorânea, e a suposta arma – uma pistola ponto 40 – foi achada enterrada. 

Não tenho dúvida de que alguém avisou Jhonatan que o Décio estava no Estrela do Mar', disse Gláucio Alencar ao JP.
Ligações de 'Bolinha' a Pedro Teles – Outras peças da investigação, obtidas com a quebra de sigilos telefônicos – que, para Gláucio Alencar, comprovariam sua inocência –, também foram desconsideradas pela polícia, segundo o acusado.

Relatou Gláucio ao JP:

'Júnior Bolinha ligou para Pedro Teles duas vezes no dia do assassinato de Décio [23 de abril] e uma na manhã seguinte. Essa última ligação, feita às 7h23, durou apenas 30 segundos. A polícia tem essa informação, obtida no detalhamento de serviços de longa distância da TIM, e no inquérito ocultou esse fato importantíssimo.

 Bolinha foi perguntado sobre as ligações num depoimento e numa acareação comigo. No depoimento, ele invocou seu 'direito constitucional de ficar calado', mas na acareação, novamente questionado, ele confirmou que as ligações haviam existido. 

Diante disso, meu advogado pediu ao delegado Jeffrey Furtado que fosse consignada a informação. Porém, o delegado disse que era ele quem presidia o inquérito e não iria colocar esse fato, o que gerou um 'bate-boca' entre o advogado e a autoridade policial.

Outro fato relevante desconsiderado pela polícia: o homem conhecido como 'Neguinho', um paraense que apresentou o pistoleiro Jhonatan para Júnior Bolinha, segundo a polícia, era 'cobrador' de Pedro Teles. Isso está no depoimento do próprio Bolinha. 'Neguinho' teve participação importante no assassinato de Décio, e está foragido até hoje. 

A polícia sequer se empenhou em obter sua identificação completa, e por isso a denúncia contra ele foi negada pelo Ministério Público.

Em relação ao 'caso Fábio Brasil', depois de o Júnior Bolinha insistir e me pressionar para participar do assassinato do Fabinho, enviei a ele [Bolinha], pelo celular de minha noiva, uma mensagem, à 00h18 do dia 30 de março de 2012, um dia antes do crime, em que deixo claro que não concordava com a ideia. 'Não faz isso não, cara, não tenho interesse nisso', foi a mensagem.

 Depois do crime, o Júnior Bolinha me procurou para tentar me extorquir. Eu falei com ele e gravei a conversa. Nela, há trechos em que eu pergunto: eu mandei fazer isso [matar Fabio Brasil]?, e o Bolinha admite que eu não havia mandado. 

As polícias do Piauí e do Maranhão tiveram acesso a todas essas peças, mas simplesmente desconsideraram'.
Com informações do Jornal Pequeno

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